"Percebeu que se, de fato, um Deus que zela pelos humanos existisse, não designaria uma máquina para ser o profeta. Esse Deus, ora cruel, ora misericordioso, nem ao menos permitiria a própria extinção dos seres humanos. Poderia a máquina ser esse Deus, dando vida de novo aos homens?". Esse e outros sinais elétricos varriam o pro­cessador de JPC-7938 com velocidade sobre-humana. Processava uma infinidade de outras informações ao mesmo tempo, o que diminuía ainda mais a energia da sua bateria. Talvez era isso mesmo que ele quisesse, para consumar de uma vez o que já estava fadado ao fracasso. Sua bateria durou quatro horas até o desligamento completo. Nessas intermináveis horas, em que não via nada além da densa neblina, que ofuscava o céu azul, cercado de nuvens brancas, percebeu que tudo não passava de coincidência. Que o planeta fora criado, de fato, ao acaso, e que não havia um destino ou uma missão a ser cumprida; apenas a existência, até o inevitável dia do fim.

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Ficha técnica do livro:
Páginas: 256 | Gênero:  Distopia; Ficção científica; Literatura Brasileira | Formato: Físico; E-book | Editora: Novo Século | Edição: 1ª |  ISBN: 9788542808124 | Idioma: Português | Ano: 2016




O Androide foi uma grata surpresa para mim. O gênero literário da obra normalmente não faz parte do estilo de livros que costumo ler, contudo, o autor Paulo de Castro conseguiu fisgar minha atenção, e me proporcionou uma experiência singular. No começo fiquei um pouco perdida, e confesso que os nomes dos androides me confundiram, mas no decorrer da trama me vi bastante envolvida e quando percebi, já tinha chegado ao final. Em si, o livro é bem simples, direto e muito coerente, que flui de maneira fácil e propicia ao leitor uma leitura muito satisfatória e reflexiva. 

“Um silêncio estranho inundava as cidades, agora um pouco mais frias, calmas, imersas em uma melancolia apavorante. Por seus milhares de sistemas automatizados, deixados involuntariamente para trás, elas continuavam a funcionar, transmitindo dados de suas muitas centenas de satélites para todos os cantos do mundo.”

Com um cenário futurista e tendo o Brasil como plano de fundo, O Androide nos apresenta um mundo onde a raça humana foi extinta após uma revolução das máquinas, e agora é comandado pelo rígido e imponente H1N1. A história se passa mil anos após a extinção da humanidade, o mundo foi dominado pelos androides, e os que conviveram com os humanos ou que são contra as regras impostas pelo líder H1N1, são severamente caçados e punidos. 

Nosso protagonista, o androide JPC-7938, foi criado na época dos humanos para ser um médico. Agora vive isolado dos demais, e não sabe que existem outros como ele, isso até ele topar com PR-4503, que fugia dos sentinelas. A partir daí, JPC-7938 descobre que não está tão sozinho como imaginava, há outros como eles vivendo escondidos, e ainda fica sabendo que PR-4503 descobriu recentemente uma câmara com material reprodutor humano congelado.

“- Sei que não faz parte da nossa natureza acreditar nesse tipo de tese, mas os humanos acreditavam que certos fatos aconteciam graças ao destino.”

JPC-7938 então tem a ideia de tentar trazer a raça humana de volta, e apesar dos pesares, PR-4503 acaba tornando-se seu aliado nesse ariscado plano. E quem entra na jogada para ajudá-los é a androide do gênero feminino, NCL-6062, que foi desenvolvida originalmente para ser uma prostituta, ela seria a responsável por gerar o embrião. Juntos, os três androides se aventurarão em uma ariscada jornada para concluir a perigosa missão: resgatar a humanidade.

"- O que eu quero é dar mais uma oportunidade aos humanos. Este mundo pertence a eles. Foi criado para eles. Só tem sentido existir para eles. A nossa própria existência fica vazia e sem sentido sem os humanos conosco."

O Androide apresenta uma narrativa em terceira pessoa, oferecendo ao leitor uma visão mais vasta dos acontecimentos. Além disso, possui alguns flashbacks do passado dos personagens, o que eu achei muito legal e esclarecedor. A escrita do Paulo é muito cativante; a forma como ele desenvolveu a trama foi incrível, me deixou mais instigada a cada nova página. Os personagens foram bem construídos, eles me despertaram muito empatia, proporcionando momentos de muita emoção, inclusive.

O conjunto da obra está perfeito: um enredo original e instigante, uma capa que conversa perfeitamente com a trama (além de ser uma graça), uma diagramação simples e limpa, que oferece uma leitura aconchegante, e uma revisão exemplar.

Aos fãs do gênero ou para aqueles gostam de se arriscar em coisas novas e diversificar de vez em quando, fica aqui a minha dica de uma trama prazerosa e surpreendente.






Sobre o autor:




Paulo de Castro nasceu em 21 de outubro de 1981, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais. Filho de pai fotógrafo e mãe dona de casa, tem apenas um irmão. Formou-se em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais em Junho de 2006. Em fevereiro de 2009, tornou-se funcionário público, ingressando na Biblioteca Camilo Prates, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde atualmente exerce o cargo de bibliotecário. O Androide é sua primeira incursão no mundo dos romances.











2 Comentários

  1. Gostei da resenha e - preciso dizer - amei a capa desse livro. <3 Há uns dois anos comecei a me aventurar no gênero sci-fi e me descobri uma grande admiradora. Tenho gostado cada vez mais e confesso que nunca li nenhum sci-fi nacional. Achei interessante a premissa do livro, essa questão da dominação da tecnologia e das máquinas sobre o homem - isso dá muito material para refletir, adoro.

    Beijos,
    Aline - Livro Lab

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  2. Tive o desprazer de ler esse livro por ser uma grande fã de ficção científica e quase joguei na parede de tanta raiva. Além de mal escrito, ele repete estereótipos negativos sobre mulheres com aquela androide prostituta que não faz o menor sentido na trama: se um androide médico e um androide engenheiro podem carregar um útero artificial, pra que você precisa de uma "androide feminina"?

    Paulo de Castro é o típico autor que acha que é só ele sentar e usar sua ~genialidade~ pra escrever. Conversar com uma mulher e ver o que ela acha de uma personagem dessas teria ajudado muito.

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